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PRÓXIMA PARADA NA ESTÔNIA
24 à 30 de Maio

Menos de 2% dos municípios atingem nível médio de transformação digital e social

Por 
Marina Lang

 

O caminho para o futuro ainda é um desafio para as cidades brasileiras. O Ranking Connected Smart Cities 2025 (CSC), divulgado no fim de setembro, mostra o percalço das gestões municipais brasileiras na busca por ambientes urbanos mais inteligentes, sustentáveis e resilientes. Menos de 2% dos 5.575 municípios avaliados ultrapassaram a nota 50, em uma escala que vai até 100 pontos.

De acordo com o estudo, isso evidencia a complexidade de atender, de forma transversal, os diversos eixos temáticos analisados, como tecnologia, inovação, mobilidade, meio ambiente e governança. Vitória, no Espírito Santo, liderou a medição, com 61,3 pontos, “valor que representa considerável distância do desempenho ótimo teórico da nota máxima 100”, diz o estudo. Municípios que recebem nota 50 ou mais estão “a meio caminho para atingir o valor ótimo”, prossegue a avaliação.

A certificação de “smart city” exige evidências auditáveis via normas ABNT ISO, lembrou Celina Almeida, diretora do Instituto Totum, que atua neste segmento, na Futurecom. “Uma coisa é uma cidade que se autointitula inteligente; outra é ter a certificação”, resumiu Almeida.

A liderança capixaba se deu pelo modelo de gestão baseado em dados e integração setorial entre secretarias, participação ativa e certificada no programa ABNT ISO, uso de “dashboards” para acompanhar desempenho de serviços e dos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS), foco em energia limpa e governança participativa, entre outros fatores.

Há outros gargalos para serem resolvidos no país, contudo. Embora o 5G tenha avançado para 1.500 municípios, a universalização da conectividade ainda é um desafio: 10,9% da população ainda não sabe usar internet móvel, apontou Otávio Barbosa, gerente regional da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) em Minas Gerais. O foco da autarquia é expandir a infraestrutura para áreas remotas e apoiar pequenos provedores na universalização da banda larga no país, sobretudo em cidades pequenas.


Embora tenha sido o 1º município brasileiro a obter as certificações, São Paulo ficou na 4ª colocação na lista, com 57,76 pontos. A capital paulista, porém, é tida pelo ranking como referência nacional em transformação digital, inovação e mobilidade inteligente, integrando dados abertos, planejamento urbano e políticas de smart city. “São Paulo nasceu tecnológica por necessidade, não por opção. Há muitos problemas que precisam de solução. Conectividade e cidade inteligente não são nada se o gestor não estiver alinhado com isso. Há cidades que estão avançadas, mas gestores, não. Menos de 20% dos governos usam IA para decisões do dia a dia. Smart cities precisam de ‘smart prefeitos’”, disse Francisco Forbes, presidente do Prodam, empresa pública de tecnologia municipal. No mês passado, a govtech inaugurou o Prodam Store, marketplace para ofertar soluções desenvolvidas localmente para outras cidades. Pelo fato de ser uma empresa pública, a contratação por prefeituras é direta e sem licitação. De acordo com o executivo, há 150 municípios interessados nos softwares de gestão governamental.

A tecnologia protagonista oferecida para outras cidades é o Smart Sampa, sistema de reconhecimento facial com uso de IA que identifica foragidos da polícia e casos de violência urbana na cidade. O monitoramento é feito via 40 mil câmeras públicas e privadas e já efetuou 2 mil prisões de foragidos da Justiça. “O sistema identifica uma placa de carro roubado em 1,4 segundo. Tem 93% de precisão, e todas as prisões foram feitas sem nenhum tiro”, elencou Forbes. Júnior Fagotti, secretário-adjunto de segurança da cidade, disse que o objetivo é expandir a cobertura, mas admitiu que é preciso refiná-la. “Ainda não achamos o modelo perfeito de integração entre o Smart Sampa e a Polícia Civil. Está acontecendo, mas sob ajustes. Isso só vai evoluir com o aprimoramento do sistema”, afirmou.

Segundo especialistas, a ampla conectividade ajuda gestões na coleta de dados para tomada de decisões sobre cidades, o que auxilia o desenvolvimento de gêmeos digitais (análogos computacionais de IA que simulam cenários) para se pensar em soluções urbanas. Cidades como Curitiba, por exemplo, vêm investindo no uso disso para gerenciar o transporte público. “Gestão de dados é um tremendo desafio. Muitas vezes esse dado está cru. Eles têm que ser seguros e atualizados. A transformação desses dados é muito penosa, e a IA auxilia nisso”, notou Cesar Ripari, diretor da companhia de tecnologia Qlik. João Del Nero, gerente de vendas da Claro, disse que a empresa usa gêmeos digitais para fornecer planejamento urbano. “O dado é o novo petróleo. É com ele que se entende onde investir em iluminação, segurança ou turismo”, concluiu.