Com a inteligência artificial, o mercado jurídico se transforma e exige habilidades que vão muito além do conhecimento das leis
O mercado jurídico brasileiro passa por sua revolução mais profunda das últimas décadas. Longe das tradicionais salas de audiência e das pilhas de processos físicos, uma nova geração de profissionais ganha espaço nos escritórios de advocacia e departamentos corporativos de grandes e médias empresas. Impulsionada pela inteligência artificial, pela proteção de dados e pela necessidade de mais agilidade, a área deu origem a carreiras que sequer existiam há alguns anos.
Funções como engenheiro jurídico, analista de dados jurídicos e especialista em Legal Operations (Legal Ops) tornaram-se altamente cobiçadas. Esses profissionais não passam o dia redigindo petições; em vez disso, dedicam-se a desenhar fluxos de trabalho automatizados, analisar padrões de decisões judiciais e gerenciar os escritórios como empresas modernas de alta tecnologia.
“A tecnologia não vai substituir o advogado, mas o profissional que utiliza a inteligência artificial certamente substituirá aquele que se recusa a adotá-la. O mercado de hoje não busca apenas quem conhece a lei, mas quem sabe traduzir dados em decisões estratégicas e criar soluções eficientes para o cliente”, afirma Solano de Camargo, presidente da Comissão de Privacidade, Proteção de Dados e Inteligência Artificial da OAB SP (Ordem dos Advogados do Brasil Seção São Paulo).
Essa mudança de perfil reflete o avanço das novas tecnologias e a demanda das empresas pela redução de prazos. O uso de algoritmos para prever o resultado de disputas judiciais e a automação de contratos de rotina liberaram os advogados para exercerem um papel muito mais consultivo e focado no negócio. A advocacia analítica também ajuda na prevenção de riscos jurídicos.
Outra vertente que impulsiona o setor é o avanço regulatório em áreas complexas. Profissionais dedicados ao Compliance Digital, à governança corporativa focada em ESG (critérios ambientais, sociais e de governança) e à segurança de dados tornaram-se indispensáveis para garantir que as empresas operem em conformidade com as novas legislações globais.
Para os recém-formados, o cenário exige uma reinvenção urgente. Universidades e instituições de ensino começam a correr para se adaptar às mudanças, incluindo disciplinas de programação, design jurídico (legal design) e análise estatística em suas grades curriculares para preparar o estudante para as exigências atuais.
O futuro do Direito consolida-se, portanto, em um modelo híbrido. Tornou-se fundamental equilibrar o poder analítico das ferramentas digitais com as habilidades essencialmente humanas como a empatia, a negociação estratégica e a capacidade de julgamento ético.
Alguns exemplos de novas atividades que estão surgindo na Advocacia
Engenheiro de Prompts Jurídicos: Profissional responsável por desenvolver, testar e refinar instruções estruturadas para grandes modelos de linguagem (LLMs) com o objetivo de criar ementas de decisões e testar padrões de contratos.
Gestor de Governança de IA Jurídica: Atividade voltada para supervisionar todo o ciclo de vida dos dados utilizados pelas ferramentas de IA, garantindo a conformidade com o sigilo profissional, regras de proteção de dados, segurança da informação e realizando a curadoria das bases de dados para treinamento de modelos.
Auditor de Sistema e de Resultados de IA (IA Legal Auditor): Profissional encarregado de realizar auditorias técnicas e jurídicas periódicas sobre o que as ferramentas autônomas produzem, atuando especificamente na “caça” a alucinações, como jurisprudências ou leis inventadas.
Arquiteto de Solução Jurídica e Tecnologia (Legal Solution Architect): Considerada a evolução mais sofisticada do mercado, essa função atua no mapeamento de fluxos de trabalho e no desenho de ecossistemas integrados de automação e Legal Operations, projetando como a tecnologia irá interagir com os humanos, serviços e clientes.