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Serviço é disponibilizado em seis estados, primeiros hospitais conectados relatam mudanças na assistência e desafios para expansão do projeto

O Brasil projeta para 2029 operacionalizar o primeiro hospital público inteiramente inteligente. Parte da tecnologia e do modelo que vão sustentá-lo já começa a chegar ao Sistema Único de Saúde (SUS). Em junho, seis hospitais do país integraram a Rede Nacional de Hospitais e Serviços Inteligentes e Medicina de Alta Precisão e começaram a operar com Unidades de Terapia Intensiva (UTI) Inteligentes. Os serviços contam com integração de dados e equipamentos e monitoramento remoto. Nas próximas etapas o projeto ainda prevê a incorporação de componentes tecnológicos, como respiradores pulmonares e camas inteligentes, bem como o uso de inteligência artificial.

O investimento inicial previsto é de R$34 milhões com a previsão de expandir para 280 leitos em 14 instituições. Na última quinta-feira, 3, o Ministério da Saúde lançou uma central de comando para conectar e monitorar as unidades 24 horas por dia. Instalada no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), a estrutura recebe em tempo real dados de pacientes internados em 60 leitos dos primeiros hospitais conectados localizados em Manaus (AM), Recife (PE), Brasília (DF), Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ) e Porto Alegre (RS).

Ao concentrar essas informações, a central do HC-USP deverá permitir não apenas o acompanhamento remoto dos pacientes, mas também a troca entre profissionais das instituições participantes e a produção de dados comparáveis entre as unidades. A expectativa do governo é que a estrutura contribua para identificar alterações clínicas mais rapidamente, desenvolver e aperfeiçoar protocolos assistenciais. Futuramente, também deve alimentar ferramentas de inteligência artificial capazes de apoiar decisões clínicas.

Para entender como a iniciativa começa a funcionar na prática, Futuro da Saúde procurou as instituições contempladas na primeira etapa do projeto e comparou as experiências de quatro hospitais que já receberam os novos equipamentos. Os especialistas demonstram como a experiência inicial de integração e armazenamento de dados já trouxe mudanças na monitorização dos pacientes e na rotina das equipes. Os serviços ainda relatam os desafios para operacionalização e as expectativas para as próximas fases do programa.

Como funciona e benefícios para a prática médica

Nesta primeira fase, os hospitais receberam monitores multiparamétricos e centrais de monitoramento conectados, que permitem reunir e transmitir informações como frequência cardíaca e respiratória, pressão arterial, temperatura e níveis de oxigênio em tempo real. O intuito é garantir um acompanhamento mais preciso e qualificado aos pacientes, reduzir complicações clínicas, tempo de internação e aumentar a rotatividade dos leitos e o acesso aos serviços.

Nos hospitais ouvidos pela reportagem, a implementação inicial alcança cerca de dez leitos por unidade. A ocupação segue o perfil assistencial de cada UTI e, uma vez internado em um dos leitos conectados, o paciente passa a ser acompanhado pela nova estrutura. As instituições não seguem critérios específicos de seleção dos pacientes. Contudo, no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP), no Recife, a UTI Inteligente é voltada para cardiologia, cirurgia cardíaca e transplantes. Já no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os leitos são de perfil clínico com previsão de ampliar nas próximas fases para pacientes cirúrgicos.

Na prática, as estruturas tecnológicas permitem que informações antes consultadas em diferentes equipamentos e registros sejam concentradas em uma mesma plataforma. No Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre, por exemplo, os dados captados nos leitos conectados já são incorporados ao prontuário eletrônico do paciente. Segundo Gabriel Hey, gerente de internação da instituição, a proposta é reduzir a necessidade de buscar manualmente informações em diferentes fontes para reconstruir a evolução clínica.

“Não precisamos mais ir até o monitor e tentar enxergar as curvas de forma retrospectiva, buscar dados de folha de enfermagem, fazer contas e lidar com tantas informações. Esses leitos são mais céleres para fazer a análise do paciente e juntar todas as informações que o médico precisa para prestar assistência. Com isso o profissional consegue se concentrar na discussão do caso com outras especialidades e com o paciente em vez de perder muito tempo analisando dados e buscando informações que não estão na mão dele”, explica Hey.

As unidades também contam com centrais de monitoramento que permitem às equipes visualizarem simultaneamente os dados dos pacientes conectados. No IMIP, além dos monitores instalados à beira-leito, telas localizadas no posto de enfermagem e na sala de evolução médica concentram as informações das unidades inteligentes. A estrutura permite ainda recuperar registros anteriores e conta com recursos para videochamadas e teleconsultorias com profissionais conectados à rede.

“Se tiver alguma intercorrência, conseguimos analisar retrospectivamente até 90 dias antes. Conseguimos rever todo o ciclo para tentar descobrir alguma causa que tenha passado despercebida. Antes, a gente não tinha essa possibilidade. Além disso, nos últimos três meses, não tivemos nenhum evento adverso relacionado à falha de monitorização nos leitos inteligentes”, relata Marianna Pontes, diretora de governança clínica do instituto pernambucano.

Além dos efeitos diretos no acompanhamento dos pacientes, a integração também amplia o potencial de uso dos dados para pesquisa, elaboração de protocolos e aperfeiçoamento dos fluxos assistenciais. Ao reunir grandes volumes de informações clínicas de forma estruturada, a plataforma pode facilitar análises sobre padrões de atendimento, resultados e condutas adotadas nas diferentes unidades.

“A plataforma vai permitir que a coleta de um número de dados muito alto, o que abre espaço para vários tipos de pesquisa. Os resultados podem ser muito importantes, mudando até a nossa prática de análise. Mas, para isso, essa etapa inicial precisa ser muito bem feita, pois os estudos precisam de dados confiáveis e muito bem colhidos. Vamos acompanhar essa coleta na prática, isso é especialmente relevante para um hospital que tem um centro universitário associado como o nosso”, observa Guilherme Barros, médico intensivista do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Preocupações e desafios

Apesar dos benefícios esperados, a expansão das UTIs inteligentes para diferentes serviços do SUS traz desafios que vão da infraestrutura dos hospitais ao desenho dos protocolos que futuramente orientarão as ferramentas de inteligência artificial. Entre os pontos levantados pelos profissionais que participam da primeira etapa estão a necessidade de conectividade adequada, de capacitação das equipes, de proteção dos dados dos pacientes e de integração de equipamentos.

Nos hospitais que já receberam a tecnologia, as condições de infraestrutura facilitaram a implementação inicial. No Hospital da UFRJ, por exemplo, a UTI havia sido reformada recentemente e já contava com o cabeamento necessário. No IMIP, do Recife, a primeira unidade escolhida também possuía estrutura de rede compatível com a plataforma. A situação deve ser diferente, porém, à medida que o projeto for ampliado. Uma segunda UTI no instituto pernambucano precisará de adequações de cabeamento para receber a tecnologia. A experiência indica que a necessidade de adaptações pode ganhar peso à medida que a rede alcance serviços com diferentes níveis de infraestrutura tecnológica.

Os leitos inteligentes ainda trazem desafios para a gestão dos serviços, visto que é preciso garantir que equipamentos adquiridos de diferentes fabricantes consigam se comunicar com as plataformas tecnológicas. Segundo Ana Carolina Leal Santos, chefe da UTI do Complexo Hospitalar da UFRJ, o sistema não exige que monitores, ventiladores, bombas de infusão e outros dispositivos sejam de uma única marca, mas os fabricantes precisam disponibilizar os protocolos de comunicação necessários à integração.

Para a especialista, a interoperabilidade deverá passar a ser considerada pelas áreas técnicas, de compras e jurídicas dos hospitais, especialmente porque diferentes empresas podem vencer licitações para equipamentos utilizados no cuidado de um mesmo paciente. “Nosso desafio é colocar nos próximos pregões e licitações, no termo de referência, essa informação de que as empresas precisarão disponibilizar seus protocolos de comunicação para que a central consiga integrar as informações”, ressalta Santos.

A incorporação da tecnologia também exige treinamento das equipes. Na UFMG, os profissionais passaram por capacitações para etapas como admissão do paciente na plataforma e integração dos dispositivos. Segundo Barros, um dos principais desafios desta fase inicial é justamente familiarizar os profissionais com a linguagem e o funcionamento da tecnologia. No GHC, o gerente de internação Hey, ainda aponta que a capacitação precisa acompanhar a chegada de novos dispositivos, inclusive, quando há mudança de fabricante ou de geração do equipamento.

A proteção das informações dos pacientes é outra preocupação. No IMIP, a diretora de governança clínica Pontes afirma que a instituição avaliou a adequação do projeto às regras da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e que as informações compartilhadas são protegidas e desidentificadas. Na UFRJ, a integração com dados mais sensíveis do prontuário eletrônico ainda passa por avaliação das equipes jurídica e de tecnologia da informação para definir como será feita a transferência das informações sem infringir as regras de proteção de dados.

Um dos pontos mais sensíveis, porém, estará nas próximas etapas do projeto, quando a integração de dados deverá alimentar ferramentas de inteligência artificial capazes de gerar alertas e apoiar decisões clínicas. Para a chefe de UTI do hospital carioca, a chegada de mais uma fonte de notificações chegou a causar receio entre os profissionais.

“Na terapia intensiva existe o que a gente chama de fadiga de alarmes. São tantos alarmes no dia a dia que a equipe já fica saturada. Quando começou essa discussão da central inteligente, a reação inicial foi de preocupação. Por isso é tão importante que quem faz o cuidado participe desde o início do projeto, para dizer quais dados precisam ser interligados e quais alertas queremos. Trabalhar para que essa tecnologia não venha com vieses de pessoas que não atuam nessa rotina diariamente”, avalia Santos.

A preocupação com as próximas etapas também aparece no desenho dos protocolos que serão acompanhados pelas UTIs inteligentes. A proposta em discussão é utilizar protocolos já adotados nacionalmente e construir conjuntamente os indicadores que serão monitorados pela plataforma. Contudo, a diretora do instituto do Recife alerta que a padronização não pode ignorar diferenças entre hospitais e regiões.

“Cada lugar funciona com a sua dinâmica, inclusive com características regionais próprias que não devem mudar por causa de protocolos nacionais. Acho que a gente consegue trabalhar com protocolos integrados, desde que seja considerada a experiência de todos e que seja possível individualizar as particularidades locais”, considera Pontes.

Hospital Inteligente

As UTIs são a primeira etapa de um projeto mais amplo de transformação digital da rede pública. Projetado como o primeiro hospital inteligente do SUS, o Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente está previsto para começar a funcionar em 2029 no complexo do HC-USP. O instituto deverá reunir inteligência artificial, prontuário eletrônico interoperável, monitoramento em tempo real, data lake hospitalar, automação e o centro de comando operacional.

A estrutura fará parte de um hospital de 800 leitos destinados ao SUS, dos quais 350 serão de terapia intensiva, e deverá funcionar também como centro de pesquisa e inovação conectado à rede de UTIs inteligentes. A expectativa é reduzir o tempo de espera na emergência em até 25%, diminuir a permanência hospitalar e aumentar a eficiência operacional.

O projeto nacional também inclui o SAMU Inteligente, que tem como objetivo ampliar a integração entre o atendimento pré-hospitalar, as Centrais de Regulação e os hospitais da Rede. O serviço já está presente em três bases, nas cidades de Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife. A iniciativa contempla ainda a modernização de hospitais de excelência do SUS, como o novo hospital da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), na zona sul da capital paulista, com 326 leitos, que começa a ser construído neste semestre. Também haverá investimentos em hospitais federais e no Instituto do Cérebro, no Rio de Janeiro.

Além disso, a rede passa a contar com Complexo de Saúde Inteligente do GHC. “Estamos trazendo para o Brasil o que tem de mais moderno no mundo de ultraconexão dos equipamentos, de uso de ferramentas de IA, de permitir que o profissional de saúde possa ter acesso aos dados do paciente em qualquer lugar. Isso faz muita diferença, porque se você consegue fechar o diagnóstico mais rápido, começar o tratamento mais rápido, ter o resultado mais rápido, está salvando vidas, está lutando contra o tempo”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, nesta terça-feira, 8, durante o lançamento.

O projeto vai reorganizar, integrar e modernizar a infraestrutura de quatro hospitais do grupo. Para isso conta com um investimento de R$1,9 bilhão com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O modelo será organizado por linhas de cuidado integradas e vai incorporar inteligência artificial, internet das coisas, big data, telemedicina, monitoramento remoto e dispositivos médicos conectados.